A confusão entre conforto e segurança

Não se tratam de questões sobre a liberdade, privacidade, nem recorrer à famosa, presumida, citação de Benjamin Franklin, porque o foco não é esse.

O foco é estratégico. Nas empresas portuguesas o conforto e segurança tornaram-se quase sinónimos, principalmente nos tempos conturbados em que vivemos. Porém, são, muitas vezes, distantes e antagónicos.

Em situações de crise temos a tendência para recolher, guardar e encolher, à espera que a tempestade passe. Pensamos que o conforto é mais seguro. Não fazemos barulho, porque alguém pode ouvir. E não pensamos sequer, que se a pessoa certa ouvir, poder-nos-á ajudar.

A confusão entre conforto e segurança faz-me sempre recordar um estimado amigo que me pediu conselhos quando se encontrava, infelizmente, desempregado. Um indivíduo altamente qualificado e capaz, que se via agora sem saber o que fazer. Dei-lhe ideias, que incluíam bater portas às pessoas certas, escrever sobre o muito que sabia e outras ações que implicavam iniciativa e já lhe davam o que fazer. Ao ver a sua aversão às minhas sugestões, foi quando surgiu esta análise. Ele, um profissional desempregado, estava a escolher o conforto de esperar que alguém lhe enviasse uma mensagem ou aparecesse uma vaga de emprego compatível; e julgava essa a opção mais segura. E claramente não era. O mais seguro seria arriscar, pois iria criar novas ligações, novas experiências, novas oportunidades. Todavia, porque entendemos o risco como algo perigoso escolhemos a conformidade.

Acontece o mesmo com o marketing nas empresas deste setor. Quando queremos atrair a maioria, porque pensamos ser mais seguro (na verdade é só mais confortável) é porque não queremos estar a correr o risco de escolher um nicho, porque pensamos que é mais perigoso. O medo da polarização é o que faz as marcas serem cinzentas. Nenhuma decisão feita com base no medo trouxe sucesso.

O SUCESSO ESTÁ FORA DA ZONA DE CONFORTO.

Este dilema faz-me lembrar o primeiro anúncio de Tommy Hilfiger. George Lois, um lendário publicitário, convenceu em 1986 o, então, jovem designer a fazer um anúncio, com o pouco dinheiro que tinha, na Times Square. No cartaz ele comparava-se com os melhores designers de todos os tempos. Era apenas copy e sem nenhuma fotografia , prática comum ainda hoje na indústria da moda. Mas a decisão de avançar com o anúncio não foi fácil, pois quem era ele, comparado com mestres? Contudo, os resultados dessa polarização desconfortável catapultaram-no para o mesmo patamar.

O risco, às vezes, é o mais seguro.

Ao termos um nicho, conhecemos melhor a nossa audiência, temos uma mensagem mais clara, definida e um método de entrega mais eficaz e impactante, e por isso, mais provável de resultar num maior retorno de investimento.

Às vezes, o arriscado é ser igual aos outros e não fazer nada.

 

Texto previamente publicado na TNews

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