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A caracterização dos portugueses como um “povo de brandos costumes” não passa de uma propaganda para amenizar quaisquer esforços opostos ao antigo regime, todavia enraizou. Já muitos foram os que analisaram este retrato surrealista e a sua contradição latente com a violenta e tumultuosa história portuguesa.

A nossa comunicação, publicidade e arte pecam pela falta de atrevimento, criatividade e afirmação, não estando, contudo, a negar as suas brilhantes exceções, sendo que estas confirmam a regra. Os aplausos são maioritariamente estrangeiros e o reconhecimento nacional é póstumo. Tem-se que emigrar para brilhar, porque aqui nem piscas, muito menos nas rotundas. Exportamos talento à custa dos que ficam e do futuro de uma nação que tem demasiada pena de si para levantar os braços.

Foi-nos imposta uma humildade que se baseia no queixume de um fado impotente, num retrato que se apresenta como se fosse realista, com os braços baixos e o queixo junto ao peito e os olhos postos nos vizinhos que saem à rua com coletes e tochas por causas que nos parecem pequenas. São pequenas porque os nossos problemas são do tamanho de Golias e o nosso David não atira calhaus porque olha para o chão e não encontra “a” pedra certa e queixa-se que só lhe dão pedritas pequenas e “assim não dá”.

Sem confiança e força, a fisga não estica e a pedra cai antes de chegar ao alvo.

O marketing turístico é nada mais que tornar o nosso lugar no mundo interessante o suficiente para que outros o queiram experienciar. E para que tal aconteça é preciso ter confiança e força nas afirmações.

O turismo brando tem os dias contados.

A HUMILDADE QUE NOS CARACTERIZA TEM QUE SER O OPOSTO DE ARROGÂNCIA E NÃO DA FALTA DE ORGULHO.

É curioso ver que o premiado anúncio do Porto como destino MICE foi criado por uma agência algarvia. É curioso ver afirmações fortes, orgulhosamente deixando de parte a humildade de quem apresenta um destino “bonito”.

Todos sabemos que Portugal não é só sol, praia, futebol e fado. Existem projetos que se afastam da praia, com valorização da cultura e de desportos que não são futebol. Inclusive participei e contribuí para alguns, contudo, estes esforços são tímidos e humildes. A comunicação, com belíssimas exceções como a mencionada acima, continua a ser branda e a figurar areia e ondas. Não requer mais investimento, como os órgãos responsáveis gostam de afirmar. Requer sim, uma vontade forte e criativa de ter impacto.

Não tenham medo de criar um turismo com personalidade portuguesa, porque o português é um gajo porreiro que chega 15 minutos atrasado a qualquer lado, bebe cerveja quando faz calor e bebe vinho à refeição. O português sabe apreciar a comida e gosta de comer bem. O português não é rude, mas fala alto e pelos cotovelos. O português chama amigo e vizinho a desconhecidos. O português diz bom dia quando chove. O português tem ideias e é inovador. O português tem uma história que só uma das nações mais antigas do mundo poderia ter.

Mostrem este turismo português ao mundo.

 

 

Texto previamente publicado na TNEWS