{"id":502,"date":"2022-12-14T12:05:05","date_gmt":"2022-12-14T12:05:05","guid":{"rendered":"https:\/\/guicosta.pt\/?p=502"},"modified":"2022-12-14T12:06:57","modified_gmt":"2022-12-14T12:06:57","slug":"falta-respeito-pelo-algarve","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/guicosta.pt\/en\/falta-respeito-pelo-algarve\/","title":{"rendered":"Falta Respeito pelo Algarve"},"content":{"rendered":"<p class=\"css-w11q5b\">N\u00e3o sou algarvio, nasci em Lisboa e aos 4 anos fui atr\u00e1s do meu pai para Bragan\u00e7a, e l\u00e1 cresci. Conhe\u00e7o cada rua, cada beco, sei cada in\u00edcio e fim de um lugar em que cada monte no horizonte te ajuda a perceber onde te encontras. Sinto-me transmontano porque fui recebido e criado como tal.<\/p>\n<p class=\"css-w11q5b\">Sou o primeiro a admitir que existe um certo desd\u00e9m para com o Algarve e os algarvios no resto do pa\u00eds. Mouros com uma pron\u00fancia que come palavras, que comem as refei\u00e7\u00f5es em gavetas, e outras tantas afirma\u00e7\u00f5es pintam uma imagem de algu\u00e9m carrancudo, ego\u00edsta e desonesto. Aqui pensa-se com o mesmo desd\u00e9m das pessoas do Norte, que aqui v\u00eam passar f\u00e9rias, com exig\u00eancias e um desrespeito berrante. Hoje sei que s\u00e3o tudo disparates.<\/p>\n<p class=\"css-w11q5b\">Vivo h\u00e1 cerca de doze anos no Algarve. Casei com uma fant\u00e1stica mulher de Monchique e o meu filho nasceu Portimonense. Contudo, no in\u00edcio, senti-me um imigrante e ignorante, mas senti-me bem-vindo. O trabalho que me ajudou a conhecer o Algarve e a pagar mais estudos foi um trabalho comercial que requeria conhecer cada terrinha algarvia.<\/p>\n<p class=\"css-w11q5b\">Doze anos, divididos no Sotavento e Barlavento, serviram para descobrir pron\u00fancias t\u00e3o distintas que se tornam fascinantes pela meia d\u00fazia de quil\u00f3metros que as separam.<\/p>\n<p class=\"css-w11q5b\">Descobri que a N125, uma estrada que atravessa o Algarve, separa mais do que serra e praia, separa gentes e identidades. Descobri muita coisa, e muita coisa ainda est\u00e1 por descobrir.<\/p>\n<p class=\"css-w11q5b\">Contudo, acima de tudo, descobri que h\u00e1 poucos algarvios.<\/p>\n<p class=\"css-w11q5b\">A identidade de um povo assenta na sua cultura, nos seus costumes, tradi\u00e7\u00f5es, l\u00edngua e geografia.<\/p>\n<p class=\"css-w11q5b\">Quem sou eu para dizer o que \u00e9 ser algarvio? Ningu\u00e9m, nem vou tentar, porque sou um deslocado, mas parece-me que nem os algarvios sabem bem quem s\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"css-w11q5b\">Penso que essa falta de identidade adv\u00e9m da sua geografia ter sido vendida como servi\u00e7o, a agricultura desapareceu e a pouca que sobreviveu passou a servir poucos e a gastar muita da preciosa \u00e1gua. As pequenas casas junto ao mar passaram a grandes pr\u00e9dios para albergar mais gente visitante e a vista do mar passou a ser paga a peso de ouro. Mercados foram demolidos em nome da higiene e moderniza\u00e7\u00e3o, apagando-se tra\u00e7os de uma arquitetura com hist\u00f3ria. O Algarve passou a servir ao inv\u00e9s de viver. Vendeu-se a geografia e vendeu-se a cultura.<\/p>\n<p class=\"css-w11q5b\">O queixume \u00e9 o roubo do Algarve, que pode ser aplicado a Portugal inteiro, mas no Algarve ainda se fazem cartazes com saldos.<\/p>\n<p class=\"css-w11q5b\">A luz ao fim do t\u00fanel existe. N\u00e3o passar\u00e1 pelo saudosismo n\u00e3o vivido daqueles que remontam a um Reino dos Algarves como refer\u00eancia identit\u00e1ria. Penso que a luz estar\u00e1 em dar foco \u00e0queles que vivem do Algarve com respeito.<\/p>\n<p class=\"css-w11q5b\">A boa comida algarvia ningu\u00e9m nega, mas projetos como o Restaurante Loki, apelidado pelo Expresso como o \u201crestaurante mais sustent\u00e1vel do pa\u00eds\u201d, onde o Chef algarvio Jo\u00e3o Marreiros colhe os pr\u00f3prios ingredientes nas proximidades e faz uma reinterpreta\u00e7\u00e3o de comidas tradicionais do Algarve, que nos deixam mesmerizados; ou os in\u00fameros investimentos vin\u00edcolas, com castas nacionais e nativas, feitos por algarvios e n\u00e3o s\u00f3, que d\u00e3o a provar um Algarve que se respeita e se faz respeitar.<\/p>\n<p class=\"css-w11q5b\">Projetos audiovisuais como o \u201cChoque Frontal\u201d que d\u00e1 a conhecer a boa arte daqueles que aqui vivem, ou o incr\u00edvel espet\u00e1culo \u201cEis o Algarve\u201d que faz um levantamento e reinterpreta\u00e7\u00e3o da m\u00fasica algarvia. Projetos arqueol\u00f3gicos como os da Associa\u00e7\u00e3o de Arqueologia do Algarve merecem mais do que respeito, merecem o devido financiamento para a exposi\u00e7\u00e3o de um Algarve que vai al\u00e9m praia. E esse financiamento vem da compra de vinhos locais, na compra de bilhetes de espet\u00e1culo durante o ano inteiro, vem da mobiliza\u00e7\u00e3o do poder de escolha dos algarvios em apostar local.<\/p>\n<p class=\"css-w11q5b\">As autoridades queixam-se da falta de financiamento e falam de um peixe com rabo na boca. Para o marisqueiro com balde de caranguejos onde nenhum consegue sair porque os outros o puxam para baixo, \u00e9 um marisqueiro tranquilo.<\/p>\n<p class=\"css-w11q5b\">Falta respeito pelo Algarve, falta acreditar que nem tudo est\u00e1 perdido ou vendido. Sabemos que faltam m\u00e9dicos, faltam meios de transporte, falta tudo, mas, acima de tudo, faltam mais algarvios no Algarve.<\/p>\n<p class=\"css-w11q5b\">Faltam mais algarvios que acreditem e defendam o Algarve.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Texto previamente publicado na <a href=\"https:\/\/www.publituris.pt\/opiniao\/falta-respeito-pelo-algarve\">Publituris<\/a><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sou algarvio, nasci em Lisboa e aos 4 anos fui atr\u00e1s do meu pai para Bragan\u00e7a, e l\u00e1 cresci. 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