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Trocando uma questão por outra, como podemos estar preparados para algo que não temos conhecimento e não temos controlo?

Nos tempos em que vivemos, é difícil ter certezas, deixamos de olhar para a frente para olharmos para o relógio. A cada dia, hora, minuto, somos bombardeados com novas medidas e novos impactos.

Temos, contudo, uma característica inata que nos permitiu conquistar meio mundo há meio milénio – o desenrasque – a capacidade de brilhar no improviso com limitados recursos disponíveis. Essa capacidade de navegar mares atribulados numa canoa leva-nos ao sucesso, porém é incapaz de nos manter lá. O desenrasque acaba sempre em algo mal construído, sensível ao toque, “deixa estar, não toques, senão estragas”. Somos um povo com baixa autoestima, acreditamos que o desenrasque é suficiente, e como Miguel Torga afirma, somos “uma colectividade pacífica de revoltados”.

Vive-se, nas empresas portuguesas, um clima perpétuo de desorganização e um ligeiro caos vindo do apelidado “imprevisível”. E se não há esse clima, é porque há um autoritarismo repressivo que partilha a criação de insatisfação do modelo anterior. É indubitável que não me refiro a todas as empresas, pois existem exemplos que o contrariam, e ainda bem. Porém, somos um povo de oito ou oitenta, mas acima de tudo, falta-nos o Norte.

Como dizia Séneca, na minha citação favorita, “Se não sabe para que porto navega, nenhum vento é favorável.”

Agora, com a tempestade no mar, temos que saber para onde navegamos. Mesmo com a urgência do barco ter uma fuga, temos que olhar em frente, senão, são as rochas que nos afundam..

Quando me questionam como consegui prever a pandemia na primeira semana de janeiro de 2020, ou agosto de 2021 que voltaríamos  a ter restrições quando tudo parecia bem, poderia referir Edmund Burke, mas não o vou fazer porque já chega de citações e corro o sério risco de cometer o vil ato de aborrecer. Não se trata de ter uma capacidade profética, mas a capacidade de abstração e olhar para a floresta invés das folhas de uma única árvore. No topo das árvores conseguimos observar com exatidão quando vem a próxima rajada de vento e não precisamos de um dedo húmido no ar para saber de onde vem.

A estratégia não é futurologia, é um plano com pilares assentes nos recursos atuais, as paredes pensadas para resistir a fenómenos naturais extremos, e o telhado é construído com o objetivo final. E, se o objetivo final for sólido, temos uma casa quente e confortável para todos os que a construíram.

Não é altura de ir para o porão ver as fugas, mas sim de olhar em frente e procurar a luz do farol. Lembre-se, não estamos todos no mesmo barco, pois alguns têm canoas e outros iates, mas estamos todos na mesma tempestade.

 

Texto previamente publicado na Publituris