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Cada vez mais se discute estratégia, do que se devia fazer, quem o deveria fazer e quando. Mas os anos passam e ninguém faz nada. Os dados são cada vez piores e parece que toda a gente sabe o que se passa e nada é feito, na impotência de uma dependência inerte.

Poderá ser este a manifestação e exemplo do Efeito do Espectador? O Efeito do Espectador é o que acontece quando alguém é vítima de algo em frente a uma multidão, que poderia facilmente ser prevenido ou ver reduzida a sua gravidade se alguém interviesse. Todavia, ninguém intervém e o grupo de pessoas, que pode bem ser considerável, mantém-se inativo. Vemos imensos vídeos na internet onde uma multidão cerca uma cena violenta, claramente incorreta, e julgamos a pavidez daqueles que levantam a mão, apenas para filmar com o seu telemóvel.

Acredita-se que pela responsabilidade ser tão diluída por todos os presentes que, quando ninguém toma iniciativa e ninguém intervém, tal deve-se à razão de todos os presentes sentirem a ausência de responsabilidade individual e necessidade de intervir. Se ninguém faz, é porque não é para fazer, porque se fosse, já alguém teria feito.

Há quem diga que somos um povo demasiado brando, passivo, tacanho, pequeno em território, população e ambição. Um país retangular de mentes quadradas.

Todavia, há quem olhe para a nossa história e veja claramente um contraste com esta descrição. Não somos um povo brando, nascemos rebeldes, de uma zanga entre filho e mãe, de um reino ganho com o punho cerrado numa espada. Só uma, entre tantas revoluções começou com música na rádio, envolveu cravos e foi mais ou menos pacífica. Todas as outras todas fizeram rodar cabeças e em todas se lutou pela vida e o direito de a viver.

Somos um dos países mais antigos do mundo, mas não somos o Velho do Restelo, somos os Navegadores que não sabiam bem por onde iam, mas confiaram que tinham o que era preciso para lá chegar. Não nos falta rebeldia.

Falta-nos a confiança de que conseguimos ir para onde queremos ir.

Como parar a inércia e aumentar a confiança?
Está provado que o exercício físico previne e combate a depressão, aumentando a autoconfiança. Não quero com isto dizer que devemos todos ir ao ginásio, mas quem faz exercício físico sabe que ir ao ginásio uma ou até mesmo dez vezes isoladas, os resultados não aparecem no espelho. A real confiança não é depositada nos exercícios isolados, é no processo contínuo da sua prática, é acreditar e saber que, se a nossa dieta for saudável e praticarmos desporto com regularidade e continuidade, com toda a certeza iremos ver os resultados no espelho dentro em breve.

Falta-nos acreditar no processo de transformação
Como se faz para se acreditar no processo? A resposta é dada por Camões, embarcando e deixando o Velho do Restelo a falar sozinho. É continuar a ir ao ginásio, apesar das dores, é deixar de comer fast food apesar do apetite. É fazer e praticar, é plantar sementes de árvores que vão dar frutos para serem colhidos por mais gente. É uma fé que se pratica. Porque a confiança constrói-se com a experiência e espalha-se tal vírus que a abateu.

Talvez a resposta seja afastar-nos da multidão, de incentivar a iniciativa e responsabilidade individual. Todos sabemos para onde queremos ir, mas parece-me que nos perdemos numa discussão de responsabilidades diluídas que, pela sua falta de definição, se transformam num castelo de areia num dia de chuva. Tal como a responsabilidade diluída de uma multidão que decide filmar invés de intervir.

Está na hora de deixarmos de apontar dedos, de se queixar da falta de apoios, financiamentos e políticas. Deixemos de estar à espera que as políticas escritas por quem não conhece mais do que a sua realidade confortável, resolvam problemáticas que não passam de um papel com números para quem não as vive.

A estratégia tem de ser o que posso fazer melhor, com os meios e recursos que tenho agora.

A estratégia passa em arredondar os cantos infinitamente, passo a passo, para encontrarmos um epicentro de um povo orgulhoso no seu passado, ocupado no seu presente e confiante no seu futuro.

 

Texto previamente publicado na Publituris