O Estranho Caso do Alojamento Local

O Alojamento Local (AL) nasceu de um verdadeiro esforço de legalização de uma prática que enriqueceu muita gente que nunca passou uma fatura. Poder-se-á até afirmar que o esforço compensou, e bem, os bolsos do Estado (todos nós) e apesar da burocracia e exigências um pouco exageradas, como é normal em Portugal, que ata os pés a quem está a aprender a andar, pode-se dizer que tem funcionado e tornou-se numa verdadeira oportunidade de investimento alternativo ao monopólio de alojamento mais formal, como a hotelaria, e impulsionou um setor imobiliário que bem precisava de uma ajudinha.

Foi, no Turismo, quem mais cresceu em tempos de pandemia, e as projeções indicam que assim continue.

Todavia, a última decisão do Supremo Tribunal de Justiça (SPJ) sobre o Alojamento Local põe em causa a sua sobrevivência, pois, embora seja uma atividade legal e regulada, poderá ser agora oposta por qualquer condómino que se chateie com os turistas do 2ºC, que não trabalham no dia seguinte e ouvem a música mais alto que um grupo de miúdos na linha de Sintra com uma coluna portátil.

A decisão do SPJ veio tentar dar um ponto final ao confronto natural de quem vive em propriedades horizontais, ficando do lado dos moradores permanentes. O que é compreensível, claro. Eu próprio, vivendo no Algarve, ainda não concordei a minha vontade com a minha conta bancária para nos mudarmos para uma propriedade com jardim e piscina. Percebo, entendo, mas não concordo. Porquê?

A decisão parece só reiterar e muscular com esteroides as já vigentes regulamentações, o que faz transparecer a sua falta de aplicação real e é aí que está o problema.

A título de exemplo, a lei do barulho é meiga demais num país em que o civismo é encarado como uma doutrina nefasta, o que resulta em conflitos desproporcionais. O vizinho afetado não tem soluções simples e eficazes. Chamar os agentes da autoridade demora e depende mais do estado de espírito dos agentes do que de uma lei demasiado vaga que parece que nos diz, à bom nortenho, “amanhem-se”.

Em Portugal, para sair de uma casa a arder partem-se janelas invés de agarrar a fechadura da porta com um pano.

Antes de o SPJ ter partido uma janela, que vai alimentar um fogo com ar fresco, em forma de pedidos de oposições à atividade em massa e conflitos que vão atolar uma administração pública já corcunda com o peso excessivo sobre as pernas trémulas dos seus funcionários, deveria ter-se feito um esforço para melhorar a regulamentação e fiscalização seguida de uma aplicação eficiente.

Mas a problemática não é só no “antes” e “durante”, mas sim também no “depois”. A ASAE é a responsável pela fiscalização, assim como as câmaras municipais, sendo que a primeira tem recursos deploráveis, tanto humanos como outros, com tanta falta de meios que só há inícios e não se chegam a conclusões nenhumas, e a segunda não tem reais competências.

O Alojamento Local nasceu velho por ter vindo tarde, e ficou bonito, pois salvou muitas atividades turísticas em tempos em que ninguém se sentia confortável a ficar num hotel com muita gente, mas agora parece que está a passar pela adolescência, a ficar com borbulhas na cara, dores de crescimento e sem paciência. Pode ser que esta idade do armário passe sem causar muitos danos.

O que é que isto tem a ver com Marketing? Falamos aqui de Estratégia Turística, de um país que depende imenso desta atividade e parece que anda perdido, com um gestos bruscos e incoerentes, tal adolescente que deseja um abraço e invés de puxar, empurra.

 

Texto previamente publicado na Publituris.

Turismo em Tempos de Guerra

Quem já viu, ou leu, as aventuras de 007 no Casino Royale, saberá que o casino foi baseado no do Estoril e que a história real é até mais fantástica, onde espiões inimigos jogavam às cartas e trocavam informações. É fácil apaixonarmos por uma História romantizada. O mundo estava mobilizado e em chamas, porém, no nosso cantinho, pequenino e convenientemente a agradar a ambos os lados, encontrou-se um refúgio. Um intervalo de paz para aqueles que fugiram do fogo e embarcaram para o outro lado do oceano, e para os afortunados que só procuravam um pouco de paz e praia.

O jogo do “quente e frio” está agora a escaldar. Com propagandas dos dois lados, o que ainda resta é o medo da guerra aberta pois agora temos demasiadas soluções rápidas e finais, mas como dizia Maquiavel, “a guerra começa quando se decide, mas não acaba quando se deseja.”

Lembro-me dos atentados terroristas na Turquia. Lembro-me dos hotéis à venda pouco depois e das praias vazias. Cá abriram-se hotéis como se fossem cabeleireiros, e lembro-me dos braços abertos, das tarifas subidas em flecha e os sorrisos rasgados dos que sentiram os bolsos mais pesados. A nossa erva verde e tranquila tornou-se novamente apetitosa e as vacas voltaram a engordar. O queixume continuou, porque se queria um ruminar mais rápido e a erva verde passou a fardo seco. O serviço piorou, e as margens de lucro melhoraram.

Uma pandemia que pousou aviões e nos fechou em casa teve um efeito tsunami no turismo. Mas aqui toda a gente ficou a perder. As ilhas, ao contrário do desastre natural, encontraram as suas defesas mais fáceis de reforçar contra este desastre sanitário. Todavia, mal sabíamos que o túnel que durou mais de dois anos, acabava num cano de canhão.

O otimismo português que dita que quem morre num acidente de aviação tem sorte por não ficar paraplégico e a quem fica paraplégico que tem sorte por não ter morrido, é o mesmo que acredita que estamos longe e que, se ficarmos pequeninos, ninguém dará por nós. E por sorte, a nossa marca é pacífica e de refúgio.

Sem querer parecer, o anteriormente citado, Maquiavel, “na guerra, há quem chore e há quem venda lenços.” E se soubemos aproveitar “o mal dos outros” anteriormente, que agora também o façamos, e melhor, porque com a seca que estamos a passar, penso que só teremos mesmo fardo seco para oferecer.

 

 

Texto previamente publicado na Publituris

 

A Morte do Turismo Brando

A caracterização dos portugueses como um “povo de brandos costumes” não passa de uma propaganda para amenizar quaisquer esforços opostos ao antigo regime, todavia enraizou. Já muitos foram os que analisaram este retrato surrealista e a sua contradição latente com a violenta e tumultuosa história portuguesa.

A nossa comunicação, publicidade e arte pecam pela falta de atrevimento, criatividade e afirmação, não estando, contudo, a negar as suas brilhantes exceções, sendo que estas confirmam a regra. Os aplausos são maioritariamente estrangeiros e o reconhecimento nacional é póstumo. Tem-se que emigrar para brilhar, porque aqui nem piscas, muito menos nas rotundas. Exportamos talento à custa dos que ficam e do futuro de uma nação que tem demasiada pena de si para levantar os braços.

Foi-nos imposta uma humildade que se baseia no queixume de um fado impotente, num retrato que se apresenta como se fosse realista, com os braços baixos e o queixo junto ao peito e os olhos postos nos vizinhos que saem à rua com coletes e tochas por causas que nos parecem pequenas. São pequenas porque os nossos problemas são do tamanho de Golias e o nosso David não atira calhaus porque olha para o chão e não encontra “a” pedra certa e queixa-se que só lhe dão pedritas pequenas e “assim não dá”.

Sem confiança e força, a fisga não estica e a pedra cai antes de chegar ao alvo.

O marketing turístico é nada mais que tornar o nosso lugar no mundo interessante o suficiente para que outros o queiram experienciar. E para que tal aconteça é preciso ter confiança e força nas afirmações.

O turismo brando tem os dias contados.

A HUMILDADE QUE NOS CARACTERIZA TEM QUE SER O OPOSTO DE ARROGÂNCIA E NÃO DA FALTA DE ORGULHO.

É curioso ver que o premiado anúncio do Porto como destino MICE foi criado por uma agência algarvia. É curioso ver afirmações fortes, orgulhosamente deixando de parte a humildade de quem apresenta um destino “bonito”.

Todos sabemos que Portugal não é só sol, praia, futebol e fado. Existem projetos que se afastam da praia, com valorização da cultura e de desportos que não são futebol. Inclusive participei e contribuí para alguns, contudo, estes esforços são tímidos e humildes. A comunicação, com belíssimas exceções como a mencionada acima, continua a ser branda e a figurar areia e ondas. Não requer mais investimento, como os órgãos responsáveis gostam de afirmar. Requer sim, uma vontade forte e criativa de ter impacto.

Não tenham medo de criar um turismo com personalidade portuguesa, porque o português é um gajo porreiro que chega 15 minutos atrasado a qualquer lado, bebe cerveja quando faz calor e bebe vinho à refeição. O português sabe apreciar a comida e gosta de comer bem. O português não é rude, mas fala alto e pelos cotovelos. O português chama amigo e vizinho a desconhecidos. O português diz bom dia quando chove. O português tem ideias e é inovador. O português tem uma história que só uma das nações mais antigas do mundo poderia ter.

Mostrem este turismo português ao mundo.

 

Texto publicado na TNEWS

Marketing orgânico faz bem e faz crescer

Em tempos de transformação e transição digital vejo que a esmagadora maioria dos provedores de serviços não vendem óculos com a receita adequada, preferindo manter a visão míope de um cliente que anda às apalpadelas e que acredite que aquilo que é feito é complicado demais, metendo estrangeirismos e complexidade para manter o foco no que está mais perto, sem se preocupar em olhar, e ver bem, o que está à frente, mas mais distante.

Fazem-no, quero acreditar, porque é difícil vender algo simples.

Nos anos 50, uma famosa marca americana tinha acabado de inventar a fórmula instantânea para se fazer bolos no forno de casa. Era tão simples quanto adicionar água e mexer e meter no forno. Mas não vendeu, porquê? Porque as donas de casa de então sentiram culpa, porque não dava trabalho nenhum. A resposta? No novo produto tinham que adicionar água e um ovo. As vendas subiram exponencialmente.

No Marketing passa-se o mesmo, complica-se para se dar valor. O problema está em que o valor está a ser dado, na minha opinião, ao processo e não ao resultado, pois o resultado de um marketing puramente operacional, sem Estratégia de Marca é um marketing comercial e vicioso.

Acredito que se oferecem ferramentas, como sítios web, channel managers, newsletters, gestão de redes sociais etc., sem Estratégia porque é por ferramentas que o cliente procura e pensa, erradamente, que já sabe do que precisa. É uma automedicação que muitas vezes causa cancro e um desacreditar no poder do Marketing. O pior de tudo é a crença que as campanhas digitais são uma solução milagrosa, qual banha de caracol explicada pelo vendedor que tem uma tia-avó que foi salva das dores nas cruzes e que agora faz o pino.   

Porque é que as campanhas digitais, sem Estratégia, são o pior? Porque criam um círculo vicioso e dependente.

É um círculo vicioso porque se não houver Estratégia de fidelização e de criação de comunidade, o nosso negócio vai estar sempre dependente dessas ferramentas, que podem e são depois usadas para nos extorquir. Se parar de fazer campanhas e deixar de ter clientes ou o número de clientes repetentes for baixo, algo está gravemente mal.

Está, inclusive, a ocorrer atualmente um significativo processo em tribunal contra a Google que, entre outras muitas práticas completamente criminosas, acusa a gigante de manipular o custo dos anúncios (inclusive com o Facebook).

Se te procuram pelo preço, o mais barato é o teu concorrente. É essa a posição que procuras?

Nunca foi tão caro adquirir novos clientes como agora. Todavia, nunca foi tão barato fidelizar os clientes como agora.

Marketing orgânico é aquele que procura utilizar técnicas publicitárias com a finalidade de criar um crescimento sustentável e independente, criando uma comunidade de clientes que nos procuram diretamente. A intenção é criar um efeito bola de neve, onde é cada vez menos necessário investimento na divulgação e focar-se no investimento no melhoramento do serviço/produto. O Marketing deve assentar na criação da Marca e só depois na sua divulgação. Nunca o contrário.

Preocupe-se em maximizar os recursos que tem para a criação da sua marca e só depois procurar ferramentas que lhe sirvam para trabalhar eficazmente a marca, porque ferramentas sem Estratégia são um custo e não um investimento.

 

Texto publicado previamente na Publituris

Quando NÃO se deve juntar a uma Trend

Uma trend é uma tendência, ou até mais precisamente, um movimento popular ascendente. É, na prática, a curva de adoção do utilizador, quando nos referimos à adoção de novos interesses e produtos.

Uma trend é similar a uma onda numa praia com maré baixa e que eleva primeiro os nadadores mais destemidos e acaba por molhar os pés dos que preferem entrar devagarinho na água, mesmo que esta esteja quente. E quem tem a prancha de surf à mão aproveita para se divertir.

Uma trend é facilmente identificável quando se torna num movimento popular porque é carregada aos ombros com palavras de ordem e buzzwords que fazem espalhar a mensagem.

A mais recente trend é a do sustentável.

A sustentabilidade é algo inegavelmente positivo, pois a sua base é a do respeito e responsabilidade ambiental, mas vamos analisar quando uma marca não se deve juntar a uma trend.

Quando o foco da nossa marca não é esse. – A visão da nossa marca deve ser clara, deve traduzir o nosso impacto e os nossos valores. Quando a trend não se encaixa nessa visão, não devemos tentar forçar ou surfar a onda, pois teremos os pés mal colocados na prancha e o mais provável é cairmos, e se a onda for grande, há a hipótese de nos magoarmos. Existe sempre a vontade de nos juntarmos a uma tendência, pois parece que é aí que está o mercado, mas, se a nossa marca representa algo diferente, iremos estar a comunicar uma marca bipolar com um discurso incoerente. Junte-se à trend somente se a sua marca, à partida, partilhar da mesma visão e não haverá divergência ou mesmo contradição com a tendência. Se for um hotel, a experiência do hóspede pode, e deve, ter componentes sustentáveis, como a reutilização de toalhas (para minimizar o impacto de energia e água), a criação de uma horta biológica para a utilização do hotel e quiçá, criar uma experiência de cultivo e cozinha autêntica. Podemos, e devemos adaptar, mas nunca fazer esse compromisso se não estivermos dispostos a cumprir.

Quando não conseguimos cumprir e comprovar a promessa. – “Faz aquilo que eu digo, não aquilo que eu faço.” É fácil de entender, mas é mais grave ainda ser confrontado com isso. Muitas marcas conseguem sair imaculadas, mas o esforço e ginástica para justificar a hipocrisia de uma afirmação falaciosa não compensa. Não faça promessas que não consegue cumprir, ou que não consegue comprovar. Não pense que ninguém lhe vai questionar, porque podem não o confrontar, mas a questão vai existir e a critica, mesmo que silenciosa, afetará a sua marca. Junte-se à trend apenas quando consegue provar as suas promessas e compromisso, quanto mais específico for, melhor. Aqui o conteúdo é fundamental.

Uma trend é facilmente identificável quando se torna num movimento popular porque é carregada aos ombros com palavras de ordem e buzzwords que fazem espalhar a mensagem.

Quando requer investimento que não dispomos. – Os movimentos ou tendências requerem adaptação dos nossos recursos. Existem maneiras de aplicarmos essas mudanças de maneira a minimizar o seu impacto financeiro, porém, se não está disposto em investir verdadeiramente não valerá a pena fazê-lo pois será uma meia-medida, e uma meia-medida só dá meio-resultado, na melhor das hipóteses. Pensa numa trend como um investimento sério e de longevidade longa, e não como uma moda passageira.

Dependendo da fase em que está. – Já não me recordo quem o disse, mas dizia que “se já ouvimos falar da trend, é tarde para nos juntarmos.” Não partilho deste absolutismo, mas percebo a razão. Isto, porque já não vai parecer autêntico e não só, porque já está numa fase de abrandamento, pois já atingiu o seu pico e toda a gente ouviu falar, e então o seu investimento terá um retorno bem mais baixo do que aqueles apostaram no seu início. Vejamos o caso das criptomoedas ou da própria internet. Quem investe primeiro tem um retorno gigante comparativamente a quem adota numa fase tardia. A impossibilidade do cálculo da longevidade de uma trend complica o cálculo importante de retorno de investimento, mas por isso temos as primeiras três razões anteriores, pois se a tendência é naturalmente próxima da sua marca, a sua marca já a representa. Se a trend for algo sociologicamente perene, ainda melhor.

Quando não acreditamos. – Talvez devesse ser a primeira razão para não nos juntarmos a uma trend, mas está em último lugar porque resume todas as outras. Só nos devemos juntar a uma tendência quando realmente acreditamos no seu movimento e não só por uma questão de aparências. Tornou-se comum as marcas mudarem os seus logos para arco-íris durante um mês nos seus canais de comunicação para apoiar o movimento LGBT+, que apesar de trazer relevância para a temática chega a questionar as verdadeiras intenções das marcas.

O mesmo acontece com o movimento da sustentabilidade e o apelidado “greenwashing” das marcas que há anos fazem parte do grupo bio-desagradável, mas que criam ações isoladas com preocupação ambiental, pura e simplesmente para manipular a sua perceção.

NÃO CAIA NA DESONESTIDADE ÉTICA.

As trends não são algo a temer. Marcas suportadas por uma, ou mais tendências, são marcas com alto potencial para um rápido crescimento. Marcas disruptivas, como são tendencialmente as trends (perdoe-me o pleonasmo), como foi a Apple, que se apoiou na trend da inovação tecnológica e da trend anti-sistema, ou imaginemos agora uma marca que se apoia na trend da sustentabilidade e a da De-Fi ou da digitalização de métodos tradicionais. Mas todas as marcas que se apoiam numa trend devem cumprir com as suas promessas, com uma visão partilhada e sentido de missão bem fundamentado.

Antes de surfar a trend, certifique-se apenas que está bem apoiado na prancha, se esta tem cera e se não está demasiado junto às rochas.

Artigo de opinião publicado no TNews

Estratégia ou Futurologia?

Trocando uma questão por outra, como podemos estar preparados para algo que não temos conhecimento e não temos controlo?

Nos tempos em que vivemos, é difícil ter certezas, deixamos de olhar para a frente para olharmos para o relógio. A cada dia, hora, minuto, somos bombardeados com novas medidas e novos impactos.

Temos, contudo, uma característica inata que nos permitiu conquistar meio mundo há meio milénio – o desenrasque – a capacidade de brilhar no improviso com limitados recursos disponíveis. Essa capacidade de navegar mares atribulados numa canoa leva-nos ao sucesso, porém é incapaz de nos manter lá. O desenrasque acaba sempre em algo mal construído, sensível ao toque, “deixa estar, não toques, senão estragas”. Somos um povo com baixa autoestima, acreditamos que o desenrasque é suficiente, e como Miguel Torga afirma, somos “uma colectividade pacífica de revoltados”.

Vive-se, nas empresas portuguesas, um clima perpétuo de desorganização e um ligeiro caos vindo do apelidado “imprevisível”. E se não há esse clima, é porque há um autoritarismo repressivo que partilha a criação de insatisfação do modelo anterior. É indubitável que não me refiro a todas as empresas, pois existem exemplos que o contrariam, e ainda bem. Porém, somos um povo de oito ou oitenta, mas acima de tudo, falta-nos o Norte.

Como dizia Séneca, na minha citação favorita, “Se não sabe para que porto navega, nenhum vento é favorável.”

Agora, com a tempestade no mar, temos que saber para onde navegamos. Mesmo com a urgência do barco ter uma fuga, temos que olhar em frente, senão, são as rochas que nos afundam..

Quando me questionam como consegui prever a pandemia na primeira semana de janeiro de 2020, ou agosto de 2021 que voltaríamos  a ter restrições quando tudo parecia bem, poderia referir Edmund Burke, mas não o vou fazer porque já chega de citações e corro o sério risco de cometer o vil ato de aborrecer. Não se trata de ter uma capacidade profética, mas a capacidade de abstração e olhar para a floresta invés das folhas de uma única árvore. No topo das árvores conseguimos observar com exatidão quando vem a próxima rajada de vento e não precisamos de um dedo húmido no ar para saber de onde vem.

A estratégia não é futurologia, é um plano com pilares assentes nos recursos atuais, as paredes pensadas para resistir a fenómenos naturais extremos, e o telhado é construído com o objetivo final. E, se o objetivo final for sólido, temos uma casa quente e confortável para todos os que a construíram.

Não é altura de ir para o porão ver as fugas, mas sim de olhar em frente e procurar a luz do farol. Lembre-se, não estamos todos no mesmo barco, pois alguns têm canoas e outros iates, mas estamos todos na mesma tempestade.

Texto previamente publicado na Publituris

A confusão entre conforto e segurança

Não se tratam de questões sobre a liberdade, privacidade, nem recorrer à famosa, presumida, citação de Benjamin Franklin, porque o foco não é esse.

O foco é estratégico. Nas empresas portuguesas o conforto e segurança tornaram-se quase sinónimos, principalmente nos tempos conturbados em que vivemos. Porém, são, muitas vezes, distantes e antagónicos.

Em situações de crise temos a tendência para recolher, guardar e encolher, à espera que a tempestade passe. Pensamos que o conforto é mais seguro. Não fazemos barulho, porque alguém pode ouvir. E não pensamos sequer, que se a pessoa certa ouvir, poder-nos-á ajudar.

A confusão entre conforto e segurança faz-me sempre recordar um estimado amigo que me pediu conselhos quando se encontrava, infelizmente, desempregado. Um indivíduo altamente qualificado e capaz, que se via agora sem saber o que fazer. Dei-lhe ideias, que incluíam bater portas às pessoas certas, escrever sobre o muito que sabia e outras ações que implicavam iniciativa e já lhe davam o que fazer. Ao ver a sua aversão às minhas sugestões, foi quando surgiu esta análise. Ele, um profissional desempregado, estava a escolher o conforto de esperar que alguém lhe enviasse uma mensagem ou aparecesse uma vaga de emprego compatível; e julgava essa a opção mais segura. E claramente não era. O mais seguro seria arriscar, pois iria criar novas ligações, novas experiências, novas oportunidades. Todavia, porque entendemos o risco como algo perigoso escolhemos a conformidade.

Acontece o mesmo com o marketing nas empresas deste setor. Quando queremos atrair a maioria, porque pensamos ser mais seguro (na verdade é só mais confortável) é porque não queremos estar a correr o risco de escolher um nicho, porque pensamos que é mais perigoso. O medo da polarização é o que faz as marcas serem cinzentas. Nenhuma decisão feita com base no medo trouxe sucesso.

O SUCESSO ESTÁ FORA DA ZONA DE CONFORTO.

Este dilema faz-me lembrar o primeiro anúncio de Tommy Hilfiger. George Lois, um lendário publicitário, convenceu em 1986 o, então, jovem designer a fazer um anúncio, com o pouco dinheiro que tinha, na Times Square. No cartaz ele comparava-se com os melhores designers de todos os tempos. Era apenas copy e sem nenhuma fotografia , prática comum ainda hoje na indústria da moda. Mas a decisão de avançar com o anúncio não foi fácil, pois quem era ele, comparado com mestres? Contudo, os resultados dessa polarização desconfortável catapultaram-no para o mesmo patamar.

O risco, às vezes, é o mais seguro.

Ao termos um nicho, conhecemos melhor a nossa audiência, temos uma mensagem mais clara, definida e um método de entrega mais eficaz e impactante, e por isso, mais provável de resultar num maior retorno de investimento.

Às vezes, o arriscado é ser igual aos outros e não fazer nada.

 

Texto previamente publicado na TNews

Reservas diretas em 6 ‘cheat codes’

Publicado anteriormente aqui.

Quando comecei no mundo da hotelaria nem foi em Marketing. Estava em forma e fui contratado para ser rececionista do health club de um proeminente e exclusivo resort algarvio. Foi aqui que aprendi a gostar de hotelaria pois, como no Marketing, é preciso gostar de servir e ajudar. E é com esse mesmo espírito que, após anos na área e inúmeras histórias de sucesso, venho ajudar a aumentar as reservas diretas em seis passos comprovadamente eficazes.

1 – Branding & Storytelling – Ui, estrangeirismos a esta hora? Sim, porque é fundamental separar a Marca do Marketing neste passo. Partilho da opinião de Marty Neumeier quando afirma que uma marca é o sentimento “que uma pessoa tem em relação ao produto, serviço ou organização.” Acredito que a marca é a nossa experiência com tudo o que a compõe.

Responda a estas 3 questões:

  • Quem é a marca?
  • O que oferece?
  • Porque a deveria escolher?

Se não se convencer com as respostas, como espera convencer os seus clientes?

Seja diferente, sem medos, e seja consistente.

2 – Esqueça a Autenticidade – Prometer & Cumprir – Ninguém quer que o seu médico cirurgião chegue ao pé de si, enquanto lhe enfiam a agulha no braço com a anestesia, e lhe diga que dormiu mal naquele dia. Só queremos que ele faça a cirurgia e que o resultado seja o esperado, ou melhor. O que interessa é que as promessas feitas sejam cumpridas, e essas podem ser autênticas. Preocupe-se em ajudar o seu hóspede mais do que a vender o seu produto. Há clientes para todo o tipo. O objetivo é encontrar as melhores promessas que já são cumpridas e expô-las a uma melhor luz, natural, de preferência. Leia as críticas, procure problemáticas que podem ser resolvidas facilmente e apoie-se nas positivas para construir as suas promessas.

3 – Conteúdo é Rei das Reservas – A seguir ao preço, o conteúdo (fotos, vídeos, textos, social media) são os fatores principais na escolha. Uma vez aumentei consideravelmente as vendas numa OTA só por acrescentar duas ou três fotos novas e mudar a ordem das fotografias. Conteúdo original, diferenciado obtém mais resultados. Tente pensar fora da caixa e abrace o risco. Alimente as redes sociais com pouco, mas bom conteúdo, seja diferente, divertido, sarcástico ou qualquer coisa inesperada. As redes sociais são uma conversa, não um monólogo.

4 – Um bom website com bom motor de reserva – Existem channel managers com website incorporado e, por experiência, o que parece barato, sai caro. Escolha o melhor de cada mundo. As questões das tarifas não posso, na boa consciência, falar aqui, porque senão os nossos amigos das OTA ir-me-iam encher o WhatsApp com mensagens menos fofas, e eu até os acho boas pessoas, mas já sabem onde quero chegar. Aposte no Google Hotels e não tenha medo de fazer um website como deve ser.

5 – É mais fácil comunicar com os hóspedes ‘in house’ – Um cartão com um promo code de 10% em cima da cómoda, se fizer reserva direta na próxima estada, faz maravilhas. Nem tudo tem a ver com o preço, e a oferta de certos privilégios, como entrada livre no Spa, um welcome pack especial, chá à chegada ou estacionamento gratuito, são formas muito eficazes de incentivar a reserva direta e que aumentam as early bookings. No check-out adicione o cartão de 10% de reserva direta quando entrega o recibo, somente a clientes satisfeitos, e aproveite para pedir uma crítica online, afirmando que estão a ajudar o hotel e a melhorar ainda mais a sua próxima estada. O hóspede vai ficar agradecido e mesmo que não reserve, vai ter mais um incentivo a escrever uma boa crítica.

6 – Marketing não é um custo, é um investimento – O Retorno de Investimento é uma preocupação, e deve ser, de qualquer marketer, digno de título. Escolha um parceiro, que procure maximizar o seu investimento e que se preocupe em fazer mais perguntas do que dar respostas. Não invista em soluções sem estratégia, porque o mais provável, se o fizer, é passarem a ser um custo e não um investimento.

Poderá estar agora a pensar que “isto não são cheat codes“, e terá toda a razão. Isto porque não existem atalhos ou, agora na moda growth hacking, para resultados. Tudo começa na estratégia e na implementação consistente. Se fizer e cumprir uma dieta saudável e for ao ginásio todos os dias é impossível que não comece a ver resultados e a ficar em forma. Esta é a sua dieta de marketing, está na altura começar a ir ao ginásio.

Não Tenhas Sonhos, Tem Uma Checklist – Como ter TDAH me ajudou a ter sucesso

Tenho Transtorno do Déficit de Atenção.

E por isso tenho uma gigantesca dificuldade em me focar. E isso ajudou-me a desenvolver e a aplicar técnicas que me permitiram ter algum sucesso.

A mais importante de todas foi a Desconstrução e perceber que

 

Sonhos < Objetivos < Tarefas

 

Por vezes perdemo-nos na ideia do sonho e não nos atrevemos a desconstruí-lo para o tornar atingível.

 

Objetivos = Sonhos / Tarefas

 

Se dividirmos os nossos sonhos em tarefas, em bullet points, numa checklist, tornam-se palpáveis, e acima de tudo, mensuráveis.

E o importante é continuamente controlar essa checklist.

E assim, passo a passo, estamos mais perto do nosso sonho.

Teoria Valor/Hora

Vamos alterar a Teoria do Valor/Hora

Por vezes os meus clientes quando me pedem um orçamento, fazem-no à espera do dito valor/hora. Pedem-me um orçamento como se os meus serviços fossem estandardizados e fixos. Porém, não é assim.

Todos somos donos do nosso tempo. Mas o meu negócio não é o meu tempo.

O meu negócio é criar valor. – Criar algo de raiz, uma marca, um conceito, uma ação.

O meu negócio é acrescentar valor. – É tornar o que já foi feito, melhor. Tornar processos mais eficientes, comunicações mais persuasivas e com mais eficácia.

O meu negócio é maximizar o investimento. – É maximizar os recursos com soluções criativas que potencializam o Retorno de Investimento.

Porque o valor é relativo, e não é ao tempo.

Ora vejamos…

15.000€, por um website, é muito? E se faturar 2.000.000€? Continua a ser muito?

O valor não é relativo ao tempo, mas sim ao valor acrescentado. O trabalho criativo (de criar) só pode ser calculado com valor do potencial retorno.

Trabalho criativo ≠ valor/hora

porque senão:

Trabalho demora mais = +€ – Investe-se menos esforço. Demora-se mais para se receber mais.

Trabalho demora menos = -€ – É-se penalizado por se ser eficiente e rápido.

Se o teu tempo é dinheiro, um problema resolvido em menos tempo estar-lhe-ia a salvar dinheiro, certo? E por isso seria mais valioso, correto?

É por isso que o valor/hora em marketing não funciona.